O susto



Temos estado ausentes, e sem vontade de vir cá, ou a qualquer uma rede-social. 
Há quase duas semanas, num domingo solarengo, o jr foi abrir o portão à avó que vinha cá almoçar. 
Foi de bicicleta e sem capacete, afinal de contas eram apenas meia dúzia de metros.

Desceu a rampa em direção ao portão. Não se sabe bem o que aconteceu, nem ele sabe explicar, apenas que foi directo ao portão. Penso que sem travar. 

Ficou estendido no chão, e o Tomás veio a correr chamar alguém. Apareceu na sala ao colo do Pai, lavado em sangue e em lágrimas. Depois de lhe ter limpo o melhor que consegui o sangue da cara ( não me importei com as pernas, pois vi que não eram golpes fundos), percebi logo que tinhamos que ir ao hospital. O lado esquerdo da cara já estava a ficar inchado. 

Entreguei o bebé à avó, disse que tinha que comer agora, 180 ml e gosta de arrotar a meio. O Mini ficou ao cargo dos tios, ainda sem almoço, e se quiser não precisava de comer a sopa.

Entramos nas urgências, ele de equipamento do Barça cheio de sangue e com dores, agarrado a mim, a tentar não chorar ( mas era quase impossível). Eu a ver tanta gente à nossa frente. 
Fomos quase logo atendidos e o pediatra achou melhor fazer um tac. 
Depois foi tudo muito rápido e agitado. 

Entrou para o tac numa cadeira-de-rodas e a revirar os olhos. Deitaram-no na máquina, comigo ao lado a dar a mão, e ele já querer dormir. Repetimos várias vezes que ele nunca iria ficar sozinho e que ou a mãe ou o pai estariam sempre com ele. Teve medo e estava assustado. A radiologista de serviço conseguiu ser uma anormal e teve que ser relembrada que o doente em causa era uma criança de 8 anos com traumatismo e visivelmente magoado, e lá se conseguiu fazer o tac da melhor maneira. Saiu da sala numa maca, deitado, e a dormir.  O cabelo com sangue e cara inchada impressionaram-me imenso. 

Fomos para uma sala de observação. Dizia que não se lembrava do que tinha acontecido, e já lhe estavam a pôr um cateter. Falavam em meningite, traumatismo craniano, operação e bloco, e ele pouco respondsivo e a dormir profundamente. Deitado nos lençóis brancos, não respondia. O cabelo cheio de sangue e a cara inchada e vermelha.

Tinha fractura tripla do malar, e falaram novamente em meningite devido ao acesso aberto até ao cérebro. Não podia tossir nem fungar, nem espirrar para não piorar as coisas, e curiosamente só espirrava. 
Meningite! E só me lembrava que estes anormais destes país ( nós portanto!), por estupidez ainda não tínhamos dado a vacina. Alertei o pediatra disso, que me tentou acalmar a dizer que não era a mesma meningite. Sem efeito, a mesma ou outra, somos uns anormais, umas bestas. Olho para ele deitado, cara inchada, sangue no cabelo, e sem a vacina da meningite, culpa nossa. Somos uns idiotas. 

Suspeitava-se de traumatismo e teria que fazer novo tac, pois por algum motivo no primeiro não fizeram ao crânio. Novamente na sala do tac, a radiologista estava mais atenciosa e menos idiota, e ele, deitado na máquina, a cara vez mais inchada e cabelo cheio de sangue. Segurei-lhe na perna para ele sentir que não estava sozinho. 

Não sei quanto tempo foi entre os tacs e à hora de jantar. Penso que terá sido a tarde toda. Meios perdidos naquela confusão, tentamos falar com o pediatra ( foi almoçar sem telemóvel), com o primo - mais-que-primo médico ( estava com um paciente a meio de algo importante é sem telefone)  com tios médicos ( sem telemóvel naquele dia), uma avó em casa com os outros dois, e a outra no início de uma viagem de 4 horas. Liguei para uma tia, casada com um tio médico, e chorei ao telefone. Lá estávamos nós outra vez num hopistal. 
Conseguimos falar com o primo (mais que primo) médico, e o João foi o buscar. Fiquei sozinha. Depois começamos a receber os telefonemas perdidos, e começou tudo a ficar mais resolvido, e menos agitado. 

Afinal não era traumatismo, só (??) a fratura tripla do malar. 
Ficamos lá a dormir, e por volta das onze subimos para o quarto.  Tomou uma espécie de banho com o Pai e a enfermeira, e vestiu o pijama que eu tinha conseguido enfiar num saco quando fui a casa.

Já sozinhos no quarto, deitei-me na cama com ele. Estava cansado e cheio de medo, fiz-lhe festinhas até adormecer. 





Sigam-nos por aqui @mybabyblueblog
Mais posts sobre Me&Us 

Comentários

Mais lidas

Ai, se ao menos dormisses eras ainda mais delicioso. Isto das noites roubam-me anos de vida. Já fui roubada antes pelo João, não anos mas sim décadas de anos de vida. Depois foram repostos com o Tomas e agora foram-se novamente. Já não tenho idade nem energia para isto. Sinto cada ruga nova, cada branca a nascer, a paciência a desaparecer. Dói o corpo, dói a cabeça, dói-me todas as células.