O testículo não está no sítio, e agora?


Muitas mães de meninos ( eu incluída) ficamos preocupadas por não "saber" bem o que fazer quando há problema com a pilinha (e não só) dos filhos, ou até mesmo questões  mais básicas como deve-se ou não puxar a pele para trás, questões relacionadas com a limpeza etc etc , e ficámos aflitas. É um mundo novo, traz consigo situações novas e por vezes até mais complicadas de resolver. 
Queremos que o bebé nasça, com tudo direitinho, perfeitinho e saudável. Mas e quando não está?

No feto os testículos encontram-se na cavidade abdominal, junto aos rins. Com o decorrer da gravidez os testículos vão descendo progressivamente, atravessam o canal inguinal (canal que separa a cavidade abdominal do saco escrotal), de forma que às 35 semanas de gestação atingem o saco escrotal.

Criptorquidia é o termo médico utilizado quando o testículo está ausente da bolsa escrotal. Pode ser uni ou bilateral. O testículo pode não existir ou estar fora do sítio:

  • Ausente - anorquidia (raro): não se chegou a formar ou houve regressão.
  • Não descido: parou algures no seu trajeto normal de descida – abdómen, canal inguinal ou depois do canal mas acima da bolsa escrotal.

  • Ectópico propriamente dito (raro): está fora do trajeto normal de descida, por exemplo na coxa ou bolsa escrotal contralateral.v Retráctil: desce normalmente mas é puxado para posição alta devido à contração do músculo da bolsa escrotal – híper-reflexia do músculo cremastérico.
Entre 2-5% dos recém-nascidos de termo apresentam criptorquidia. Nos recém-nascidos prematuros, como geralmente não houve tempo para completar a descida, esta percentagem sobe para cerca de 30%. A maioria dos testículos não descidos ao nascimento completa a descida dentro dos primeiros 3 a 4 meses de vida. Após os 6 meses de vida a descida espontânea é rara. Os testículos não descidos, habitualmente, são detetados na infância. O seu diagnóstico na adolescência ou idade adulta é raro. Para diagnóstico, o exame físico cuidado por especialista (pediatria e/ou cirurgia pediátrica) é muitas vezes suficiente. Em alguns casos pode ser recomendável a realização de ecografia inguinoscrotal. 

Quais são os riscos de o testículo não estar no sacro escrotal?
Para o seu normal desenvolvimento, o testículo precisa estar no saco escrotal, a uma temperatura mais baixa (< 2-3 ºC) que a do resto do corpo. Se permanecer não descido, pode atrofiar e ter um desenvolvimento anormal, o que aumenta o risco de infertilidade (principalmente se for bilateral) ou de cancro testicular.
Há maior risco de trauma por compressão do testículo contra os ossos da bacia e de torsão testicular dada a sua fixação incompleta. Por outro lado, em 90% dos casos há persistência do canal peritoneovaginal pelo que a existência de hérnia inguinal associada é bastante frequente. 
A correção desta situação, além de atenuar significativamente o risco das complicações, também permite o seu diagnóstico mais precoce, no caso de acontecerem. 
Nota: O testículo retrátil é uma situação benigna e transitória, que na maioria das vezes não requer tratamento. Contudo, se o testículo passa a maior parte do tempo fora do saco escrotal (sujeito a uma temperatura superior) pode estar indicada a sua correção. 

Qual é o tratamento?
Não deve ser realizado qualquer tipo de exercício ou massagem. Não resolvem e podem até agravar a situação. O tratamento médico (uso de hormonas) não está recomendado por rotina. Apenas deve ser usado em casos específicos, sob orientação médica. O tratamento indicado é a correção cirúrgica. Recomenda-se que seja realizada após os 6 meses e idealmente antes dos 12-18 meses de idade. A intervenção cirúrgica consiste em fazer descer o testículo e fixa-lo na bolsa escrotal – orquidopexia. Esta cirurgia é comum e muitas vezes realizada em regime de ambulatório. Se o testículo não é palpável deve ser realizada uma laparoscopia exploratória confirmar a presença intra-abdominal do testículo. Se estiver presente, e a morfologia testicular for normal faz-se a correção cirúrgica. Caso o testículo apresente estrutura anormal deve ser removido para prevenção de malignização. Estes casos podem implicar hospitalização por 24-48 horas. 

O tratamento cirúrgico tem algum risco?
Como qualquer cirurgia, há o risco de infeção ou hemorragia. Pode ocorrer lesão do ducto deferente (canal que transporta os espermatozoides) ou atrofia testicular devido a lesão de vasos sanguíneos ou inflamação pós-operatória. Raramente pode ocorrer reascensão dos testículos ou recorrência de hérnia inguinal. 

E depois?
A criança deve ser reavaliada 2-4 semanas após a cirurgia e posteriormente em consulta anual (rastreio das possíveis complicações). Se há implicações psicológicas/prejuízo na imagem corporal devido à deformação do escroto causada pela ausência do testículo pode ser colocada prótese testicular para dar uma aparência normal. No caso de não existir nenhum testículo, além de infertilidade, o desenvolvimento de caracteres sexuais secundários está comprometido pelo que deve ser seguido por um endocrinologista pediátrico. 


artigo integralmente retirado do site Educare.pt, escrito por Ângela Oliveira, com a colaboração da Dra. Ana Antunes (endocrinologia pediátrica) e do Professor Doutor Jorge Correia-Pinto, Professor Catedrático de Cirurgia Pediátrica da Escola de Ciências da Saúde da Universidade do Minho e Diretor do Serviço de Cirurgia Pediátrica do Hospital de Braga



foto: pinterest
fonte: Educare.pt, 

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