O QUE É UMA CONVULSÃO FEBRIL?


Desde que soube de um caso muito próximo, e do susto que foi, agora sempre que o meu filho está com febre, tenho medo que tenha uma convulsão...
A maioria das convulsões são autolimitadas, com duração inferior a 5 minutos, não necessitando de tratamento farmacológico para a interrupção da convulsão. 
Quando a duração for superior a 5 minutos, deve ser administrada terapêutica anticonvulsivante. 
Habitualmente, as crianças ficarão um período de tempo em vigilância para confirmar a origem da febre e são raras as situações com necessidade de internamento.

As convulsões febris ocorrem entre os 6 meses e os 5 anos de idade e têm os seguintes critérios:
- Associação a temperatura corporal superior a 38 ºC;
- Ausência de défice neurológico;
- Ausência de doença do metabolismo;  
- Ausência de convulsão prévia sem febre;
- Ausência de infeção ou inflamação do sistema nervoso central (exemplo: meningite, encefalite, etc.).

É uma situação rara e perigosa?
Não! Constitui a causa de convulsão mais comum na idade pediátrica. Ocorre em 2% a 5% das crianças com idade inferior a 5 anos. A maioria das convulsões febris são simples, sendo em 9% a 35% dos casos complexas. Ocorre um pico de incidência aos 18 meses de idade. O início após os 6 anos de idade é incomum. Não está descrito predomínio de sexo.

As convulsões febris são todas do mesmo tipo?
Não, as convulsões febris podem ser: 
1. Simples ou típicas: Duram menos de 15 minutos, são habitualmente generalizadas e só ocorrem uma única vez em 24 horas.
2. Complexas ou atípicas: Duram mais do que 15 minutos, são habitualmente focais (só uma parte do corpo é afetada, por exemplo “tremer uma perna”, “esticões num só braço”, etc.) e podem ocorrer mais do que uma vez em 24 horas.
3. Estado de mal epilético febril: Consiste numa convulsão febril única com duração superior a 30 minutos ou numa série de convulsões febris durante as quais não há recuperação entre os eventos num período superior a 30 minutos. Este tipo é mais raro (inferior a 10%).

Por que motivo as crianças podem ter convulsões quando estão com febre?
A causa é incerta. 
Alguns autores defendem que as crianças são mais suscetíveis, baseando-se no estádio de maturação cerebral e na suscetibilidade genética. 
Frequentemente as convulsões ocorrem no primeiro dia de doença e em 25% dos casos é o primeiro sinal de que a criança está doente. Apesar da crença comum que a subida da temperatura, por si só, é o fator mais importante para o desenvolvimento da convulsão do que a temperatura atingida, não existem evidências que a suportem.
As convulsões estão associadas a infeções víricas, na maioria dos casos, mas também podem ocorrer em infeções bacterianas. Frequentemente, a infeção está localizada nas vias aéreas superiores (otite, amigdalite ou nasofaringite), mas também podem ocorrer em casos de infeção urinária ou gastroenterite aguda. O agente mais comum é o vírus herpes humano do tipo 6 (associado ao exantema súbito). 

As convulsões podem ocorrer como reação pós-vacinal com DTP ou VASPR (2 a 3 dias após DTP e 1 a 2 semanas após VASPR).

A história familiar de convulsões febris em familiares de primeiro grau é um importante fator de risco. Aproximadamente 25% a 40% das crianças têm história familiar positiva. Irmãos de crianças com convulsão febril têm um risco de 9% a 22% e o risco aumenta com o número de familiares que já tiveram convulsão febril. 

Como se faz o diagnóstico?
O diagnóstico implica a avaliação da causa da febre e a exclusão de causas alternativas de convulsões. É sempre pedido aos pais e testemunhas que descrevam de forma detalhada a convulsão. Também se questionam sinais e sintomas acompanhantes que possam auxiliar na localização do foco da febre, antecedentes pessoais (exemplo: fatores de risco neonatais, desenvolvimento psicomotor, doença neurológica prévia e imunizações) e também antecedentes pessoais e familiares de convulsão ou epilepsia.
No exame objetivo é dada particular atenção a: sinais de irritação meníngea, défices neurológicos, assimetrias, estigmas de doenças neurocutânea ou metabólica e o perímetro cefálico.

Qual a probabilidade de ter meningite ou outra infeção do sistema nervoso central?
A incidência de meningite nas crianças que apresentam convulsão febril é baixa (cerca de 1%). Os sinais de alerta são:
- Irritabilidade;
- Alteração do estado de consciência;
- Défice neurológico;
- Convulsão complexa;
- Demora em voltar ao estado habitual.

Devem ser feitos exames?
Na maioria dos casos não é necessário. Não devem ser realizados exames por rotina.
No entanto, devem ser pedidas análises em caso de alguma suspeita em particular, como, por exemplo, convulsão complexa, demora em voltar ao estado habitual, concomitantes com realização de punção lombar ou febre sem foco (em idades inferiores a 36 meses). A punção lombar deve ser realizada quando estão presentes sinais meníngeos ou outros sinais/sintomas sugestivos de infeção do sistema nervoso central. A imagem cerebral e o eletroencefalograma devem ser considerados em situações específicas.

Se não foi uma convulsão, então o que pode ser?
- Shivering (“tremores” durante a subida térmica)
- Espasmo do choro
- Síncope (“desmaio”)
- Infeção do sistema nervoso central 
- Epilepsia
- Alteração metabólica em contexto de vómitos, diarreia ou alteração da ingestão de líquidos
- Intoxicação medicamentosa

Como atuar perante uma convulsão com febre?
A maioria das convulsões são autolimitadas, com duração inferior a 5 minutos, não necessitando de tratamento farmacológico para a interrupção da convulsão. Quando a duração for superior a 5 minutos, deve ser administrada terapêutica anticonvulsivante (diazepam solução retal). Habitualmente, as crianças ficarão um período de tempo em vigilância para confirmar a origem da febre e são raras as situações com necessidade de internamento.

Qual é o prognóstico?
Geralmente é bom; as convulsões febris tendem a desaparecer com a idade.
Globalmente, as recorrências são comuns. Mais de metade das recidivas ocorre nos 6 a 12 meses seguintes ao primeiro episódio. Há maior risco de recidiva se a idade da primeira convulsão for inferior a 12 meses; existir história familiar de convulsão febril ou epilepsia em familiar de primeiro grau; a convulsão tiver início com temperatura corporal próxima dos 38 ºC; o intervalo de tempo for curto entre início da febre e da convulsão; houver recidiva no mesmo episódio febril ou convulsão complexa.

Ter uma convulsão com febre significa que o meu filho vai ter epilepsia?
Não! Se a convulsão for simples, o risco de epilepsia é de aproximadamente 2%. No caso de ser complexa o risco aumenta para 4% - 6%. O risco de epilepsia aumenta se existirem alterações do desenvolvimento psicomotor, história familiar de epilepsia, ou convulsão complexa ou recorrente.

Como se faz o seguimento?
- É explicado aos pais o modo de agir perante uma nova convulsão: manter a calma, manter a boca e o nariz permeáveis, de modo a permitir uma boa ventilação (exemplo: colocar a criança deitada para um dos lados e nunca colocar objetos na boca), administrar diazepam solução retal se necessário, e, posteriormente ser observado por um médico.
- As recorrências não acontecem necessariamente com o mesmo grau de temperatura e podem não ocorrer sempre que a criança tem febre.
- Os anticonvulsivantes ou os antiepiléticos administrados de forma intermitente ou no início da febre não estão recomendados. 
- Fazer regularmente as consultas de saúde infantil no centro de saúde ou pediatra assistente.

artigo intergalmente retirado do site Educare.pt, escrito por Maria Miguel Gomes, interna da formação específica em Pediatria, com a colaboração de Manuela Costa Alves, assistente hospitalar do Serviço de Pediatria do Hospital de Braga.

foto: pinterest
fonte: Educare.pt, 

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