o porquê dos porquês!

É verdade, estamos oficialmente na fase dos porquês!
Exagero meu?
Terei a certeza?
E como é que eu sei?

Ora bem, muito simples:

“Tomás, anda vestir”
“Po-quê?”
“Porque vamos a rua e tem que ir vestido”
“Po-quê?”
 “Porque senão tem frio”
“Po-quê?”
“Porque a roupa protege a barriguinha do Tomás do frio”
“Po-quê?”
 “Porquê está frio”
“Po-quê?”
 “Porque o sol foi embora”
“Po-quê?”
 “Porque sim”
“Po-quê sim po-quê?”
“Porque é a vida”

Ufa, calou-se, pensei eu.
Nisto, passado uns segundos diz:
“É a vida, po-quê?”


Mas para quem acha que ainda há margem para dúvidas, deixo aqui outro exemplo que consolida o meu argumento que estamos mesmo nesta fase:

“Vamos papar?”
“Po-quê?”
“Porque está na hora de papinha”
“Po-quê?”
“Porque senão a barriguinha do Tomás tem fominha”
“Po-quê?”
“Porque a papinha faz bem”
“Po-quê?”
“Porque faz crescer para ficar grande”
“Po-quê?”
“Porque os meninos querem ser grandes como os papás”
“Po-quê?”
“Porque sim”
“Po-quê?”

Agora aqui começa na fase lúdica do diálogo

“ Porque senão vem os astronautas e aterram no jardim”
“Po-quê?”
“Porque os dinossauros querem as cenouras”
“Po-quê?”
“Porque as cenouras são dos coelhinhos e fugiram para o mar”
“Po-quê?”
“Porque eu quero”

Ficou pensativo e cala-se.
Arregala os olhos, abre a boca e diz:
“ A mãe quer cenouas dos coeinhos? E dos sauros?”
“Sim”
“Po-quê?”

I rest my case….

(normalmente até tenho paciência, mas quando começamos a ultrapassar o patamar dos 7/8 “po-quês”, confesso que começo a ficar algo saturada e dá-me para a palermice (shame on me!). Mas em minha defesa, estas diálogos repetem-se sempre e para tudo! " «queres agua - po-quê?",, "vamos embora - poquê?", " vamos ao banho? poquê?", "o telefone está a tocar? poquê?" etc etc.
 Ao ler este artigo, vejo que tenho muuuuuiito ainda pela frente e para aprender).

Mas então quando começa esta fase?

Começa por volta dos três anos. “Mãe, porque é que o Céu é azul?”, “Pai, porque é que temos de comer legumes?”, “Avó, porque é que tens cabelos brancos?”, “Avô, porque é que gostas tanto de ler o jornal?”, “Tia por que é que…?”

A chamada “idade dos porquês” é um período clássico e habitual no desenvolvimento das crianças. E embora possa ser bastante cansativo para os adultos significa que os mais pequenos estão a crescer da forma esperada.


Identidade em construção

Desde que nasce, a criança aprende sobre o mundo que a rodeia e sobre si própria. E antes de saber falar – ou melhor, antes de ter o vocabulário suficiente para fazer perguntas – a curiosidade está lá, mas ela não a consegue expressar.

À medida que vai sendo cada vez mais eficiente na comunicação, a criança começa a questionar os outros sobre tudo o que quer compreender. E os temas são quase infinitos. É aí que a interrogação “porquê?” começa a multiplicar-se.

O conhecido psicólogo e pedagogo suíço Jean Piaget, pioneiro no estudo dos mecanismos de desenvolvimento infantil, chama a este momento o “período pré-operatório”. Ou seja, as crianças conquistam a capacidade de criar imagens mentais sem que o objeto ou as pessoas estejam presentes.

Para além disso, é nesta altura que conseguem observar e sentir muito mais estímulos do que conseguem entender. Desta forma, nada mais natural do que procurarem permanentemente o conhecimento.

A criança quer perceber-se a si mesma, perceber os outros e o seu comportamento, perceber as regras e os modos de agir, perceber os cenários que a rodeiam, enfim, perceber tudo – ou quase tudo. E os adultos em quem tem mais confiança são os destinatários preferidos para esclarecer dúvidas.

É esta curiosidade infindável, esta procura em perceber o mundo que a levará a fazer sempre novas descobertas e a sofisticar os seus mecanismos mentais. Se tal acontece de forma sólida na infância, é um bom princípio que a acompanhará durante toda a vida.


Importância das respostas

Quando os “porquês” se amontoam, pode ser necessário ir buscar todas as reservas de paciência para manter a calma. Mas vale a pena tentar permanecer sereno e, mais importante, responder à criança.

Como já se viu, ela não pergunta incessantemente porque quer ser “chata” ou porque não ouviu as respostas anteriores. Trata-se de um processo permanente de desenvolvimento pessoal, que deve ser respeitado.

Se a criança é travada pelos adultos em quem mais confia – sejam eles os pais, outros familiares ou os educadores – no momento em que faz perguntas, poderá sentir-se desvalorizada e até perder a vontade de descobrir coisas novas. E então, por medo ou insegurança, poderá parar o seu processo de aprendizagem.

Como acompanhar

Uma boa estratégia para enfrentar a fase dos porquês é colocar-se no papel da criança e perceber que tipo de atitude dos adultos é que ela está à espera.

Ficam aqui algumas sugestões:

Por mais saturado que esteja, não ignore as perguntas e tente ouvir a criança com atenção;
Dê respostas adequadas à sua idade e/ou maturidade. Demasiado simples não a satisfazem e demasiado complexas apenas a confundem;
Se não estiver certo da resposta, diga que não sabe, que vai pensar e investigar e que depois lhe responderá. E cumpra;
Não dê respostas antes de a criança fazer as perguntas. Respeite o seu ritmo;


Evite ceder à tentação de dar respostas incorretas ou fantasiosas. Quando descobrir a verdade, a criança perderá parte da confiança que tem em si.



foto: haiiley faria blog via pinterest

fonte: Sapo Lifestyle

nota: mais artigos relacionados com comportamentos e idade ver aqui.  
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