A bota castanha do pé esquerdo e a III Guerra Mundial


Comecei a dar banho ao João, e estava muito orgulhosa de mim mesma pois aquele fim de tarde estava a ser muito tranquilo. Verdade seja dita, que o Tomás ainda não tinha chegado e o João agora com os seus 5 anos anda muito mais "adulto", e sim, normalmente só com um costuma ser mais fácil e menos tumultuoso. Mesmo assim, e enquanto lhe esfregava a cabeça, não consegui deixar de ficar contente com a minha pseudo vitória e se tudo continuasse assim, seria sem dúvida uma noite fácil.



Tocam à porta, mais cedo do que estava à espera, ou terei sido eu que me teria atrasado? Era o Tomás, e mal entrou encheu a casa com gargalhadas e a chamar pelo mano.
Enquanto fugia para à casa-se-banho ainda consegui tirar-lhe o casaco, e lá foi ele em direção ao irmão como se não o tivesse visto há mais de um mês.

Ainda no meio de da agitação das mochilas e dos casacos, que tinham caído ao chão, e a despedir-me do avô, vem um longo e sofrido "tomáaaaaaassssssss!" Seguido de um choro sentido.
O senhor Tomás de tão contente que estava por ver o mano, achou que seria uma boa ideia de demonstrar essa felicidade em atirar a bota do mano para a banheira. O mano implodiu num choro enquanto a bota mergulhava na água ainda com champô e lá ficou afundada ao lado dos dinossauros e do carrinho azul.

O João tapava a cara e chorava como se fosse o fim do mundo, o Tomás anuncia que o mano estava a chorar e que o "pato ta molado", como se tivesse sido um acaso a bota ter caído sozinha e inesperadamente à água.

Confesso que tive vontade de rir, mas achei mais prudente da minha parte tentar conter-me sob risco de ainda começarmos a terceira guerra mundial.

Tirei a bota encharcada da água e disse que João que não fazia mal pois secava. "Mas eu adoro a minha bota!" Exclamava no meio das lágrimas, enquanto lhe dizia que não fazia mal pois amanhã podia usar as outras que tinha. "Mas eu não gosto dessas!" Ao qual lhe dizia que eram quase iguais e mesmo muito parecidas. " Mas está é a minha bota preferida, eu adoro aquela bota!!! E queria mesmo usar amanha para a escola!!!" Proclamava como se estivesse a falar de uma paixão antiga e escondida.

Não fazia a mínima ideia desta adoração que tinha pela bota castanha do pé esquerdo, nunca me tinha dado conta desta ligação tão especial entre aquela bota castanha do pé esquerdo nem muito menos que ele tinha calçado preferido é com uso próprio para cada dia específico da semana.

Era um drama instalado, a bota castanha do pé esquerdo estava completamente encharcada, ele num pranto e o Tomás sentado no chão ao lado da porta a tentar fugir.

Convenci-o a sair da banheira com a promessa que iríamos secar a bota castanho do pé esquerdo com o secador forte da mãe.
Rapidamente me apercebi que aquele plano tinha tudo para falhar, e que o 10 minutos que tinha disponíveis entre o banho e o jantar não seriam suficientes para secar a dita cuja.

Coloquei-a em cima do aquecedor do quarto, virada para baixo para que o ar quente secasse o seu interior. Se ficar assim até amanhã pode ser que seque, pensei.

No fim de jantar fui ao aquecedor ver a evolução da bota castanha do pé esquerdo. A sola da frente era de borracha, e obviamente derreteu em cima do aquecedor. Fez um buraco mesmo na parte da frente da bota (que ainda continuava molhada diga-se de passagem) e deixou vestígios em cima do próprio aquecedor. Pior a emenda do que o soneto, e claro, grande palermice da minha parte.

Sorrateiramente fui ao quarto dele que já dormia ferrado e tentei que a porta do armário não fizesse barulho. Tirei as outras tais botas que era mesmo quase iguais e mesmo muito parecidas, e troquei os atacadores com os da bota com a cratera. Estavam assim ainda mais parecidas com as falecidas.
Voltei a colocar debaixo da cadeira com a roupa do dia seguinte, como se fossem as referidas ditas cujas. E escondi bem escondido as falecidas, com os atacadores das outras.

"Então, secaram as botas?" Pergunto de manhã.

" Sim, estão mesmo bem! Gosto tanto desta bota, aponta para a bota castanha com os atacadores das falecidas, 

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