Conversas mais difíceis | Falar sobre a morte


"Mamã, a tua avó?"
Pensei que tinha chegado aquela conversa que sei que deveríamos ter, mas que andava sempre a empurrar para a frente. Mas tão rapidamente ele pergunta, como quase que responde, deixando-me a mim sem necessidade de me estender mais:
"Está com o Jesus? No céu?"
"Sim, está". 

Fui preguiçosa, e acomodei-me com a ideia que ele já sabia, e eu não precisava de ter uma conversa que não sabia por onde começar, como explicar, e provavelmente como disfarçar as minhas lágrimas escondidas. Na verdade, a conversa evolui para outros assuntos, nomeadamente tractores e barcos, até que surge outra pergunta, do nada:

" A Bibó, ainda está muito doentinha ainda?"
Percebi logo que a minha avó e a Bibó eram duas pessoas distintas na cabeça dele. E eu, meia cobarde, sem força, e com medo, apenas respondi que "está muito doentinha..."

Não tive coragem, nem da primeira vez, nem da segunda. Se bem que na primeira pergunta, mentalizei-me que mal surgisse a hipótese, teria uma conversa com o João sobre este assunto, e que para isso iria ler algumas coisas para me ajudar. Só não estava à espera que a segunda hipótese de ter uma conversa sincera seria logo após 2 minutos, no carro, o cenário que eu não tinha idealizado. 

A verdade é que não tive coragem, e tenho que a ter. O João já tem 5 anos, e faz perguntas. Perguntas que gosto de responder com lógica e explicar-lhe as coisas direitas. Até porque no colégio falam sobre isso, e até tenho meio caminho já andado, portanto teremos mesmo que ter uma grande conversas, que, desconfio será mais difícil para mim, do que para ele. 

Do que li, já sei que há coisas que não devo dizer pois apesar de serem bem intencionadas, podem transmitir uma ideia errada. Frases como " o Jesus veio a buscar" (apesar que não a iria utilizar, pois há algo na frase que não gosto),  a criança pode ficar a pensar se Jesus é bom, então porque veio buscar a pessoa para estar consigo ao seu lado? Outra frase como " é uma Estela no céu, que vai tomar sempre conta de nós", ( confesso que gosto desta frase, e até era bem capaz de a usar caso não tivesse lido isto), mas pode criar na criança uma insegurança quando o céu não está estrelado. Dizer também que foi fazer uma viagem, implica que algumas viagens não terão regresso, e no nosso caso, como o pai viaja muito, acho inapropriado estar a "meter minhoquinhas na cabeça" dele. 

Acho mesmo que direi algo que a Bibó estava muito doentinha, e já é velhinha, e agora está com o Jesus no céu. Não digo que o Jesus a veio buscar, e sei que algures terei que utilizar a palavra morte e explicar que é irreversível ( não como nos desenhos animados, que arranjam vidas para não morrerem). E também terei que explicar que a morte faz parte da vida, mas não irá acontecer ao pai, nem a mãe, nem ao mano, nem ao seu círculo mais fechado ( não lhe posso criar inseguranças). 

Deixo aqui uma ideia de como falar e o que dizer aos mais pequenos sobre a morte:

(Fonte: http://veja.abril.com.br/070307/p_088.shtml)

Faz 4 meses, seria daqui a pouco o sei aniversário e eu tenho saudades. 
Quero-me de recordar, com medo de me esquecer, mas tenho medo de chorar. Quero esquecer, para não doer, mas tenho medo de nunca mais recordar. 


Estive a ler estes textos para ajudar na minha conversa com o João 
http://www.dn.pt/revistas/nm/interior.aspx?content_id=2852285
http://veja.abril.com.br/070307/p_088.shtml
http://www.mgfamiliar.net/itemgenerico/psicologia-infantil-a-crianca-e-a-morte

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