A minha primeira conversa difícil | Falar sobre a morte




aqui tinha referido que teria que ter em breve uma conversa difícil com o João, explicar que a Bibó já cá não estava. 


A Bibó, minha avó, faleceu em Março, e nós nunca tinhamos tido uma conversa com o João sobre isso. Os seus últimos tempos foram passados no hospital, e para o fim já não levava o João a visita-lá com medo que ele ficasse impressionado. 
Pensei, aliás pensamos, que se deixassamos de falar sobre a Bibó, eventualmente ele esqueceria-se e não iria fazer perguntas. De uma certa maneira achamos que ele seria "poupado" ao sofrimento, evitariamos criar confusões na sua pequena cabeça, e seria mais fácil para mim. O João só tem 5 anos, e na altura teria 4, e eu não quis que ficasse perturbado com tudo. 
Não sei se foi a melhor decisão, mas foi a que tomámos. 

O que é certo é que passado algum tempo, e assim do nada, ele falava dela. Ou quando passávamos perto de sua casa, dizia " ali é a casa da Bibó", ou " isto foi a Bibó que me deu", mas nunca perguntava explicitamente por ela. Por isso, e por preguiça, deixei-me estar. 

No outro dia, no carro, perguntou-me se a Bibó estava ainda muito doentinha, e eu, disse que sim. 
E pensei, chegou a hora de lhe contar. 

Foi neste sábado, antes de ir ao cemitério, sentei-me com o João, a sós. 
Comecei por dizer que a Bibó estava muito doentinha, e já era muito velhinha (nas suas palavras), e tinha ido para o céu, com o Jesus. 
Não disse que o Jesus a tinha vindo buscar, pois sabia que poderia ser mal interpretado, e no meio da conversa tentei meter a palvara "morte", e explicar que faz parte da vida. 
Reforcei que não iria acontecer com os pais e irmão, nem os 4 avós ou tios.

Ele ficou muito calado. 
Depois, para não ser muito duro, disse-lhe apesar de ela não estar aqui conosco, está no nosso coração, cá dentro, e vai estar sempre a acompanhar-nos e a ver-nos (obrigada querida Mafalda!). E sempre que tivemos saudades, fechamos os olhos e pensamos na Bibó. 
Ele continuou calado e atento. 

"E quando achares que tens saudades da Bibó, vens ter comigo ou com o pai, e falamos ummpouco sobre a Bibó, das coisas giras que te oferecia, de quando vinha cá jantar, das brincadeiras. Podemos ver também fotografias, e vídeos que temos da Bibó, e vais ver que tudo fica melhor."

Não querendo também prolongar muito a conversa, para não ser pesado demais para ele, mudei de assunto para outro de seu interesse ( provavelmente carros ou dinossauros). 

Foi a minha primeira conversa difícil, que correu bem ( penso eu). Não sei se foquei nos pontos todos, mas o importante é que ele percebeu, e não se sentiu incomodado nem perturbado. 

Obrigado a todas pelas sugestões e pelos comentários. Obrigado pelos desabafos e pela confiança depositada. É sem dúvida um tema sensível, mas tinham razão, as crianças reagem melhor do que estamos à espera. 


Adenda: a conversa foi no sábado, hoje, segunda, o João perguntou-me se a Bibó tinha morrido. Disse-lhe que sim, e reforcei que a família mais chegada não irá morrer. Perguntou-me se todas pessoas morriam, e tive que responder que sim, mas mais uma vez reforcei que nós, o seu círculo chegado não iria morrer. 
Perguntou-me também o que era o cemitério. E eu, sem saber muito bem como explicar, disse-lhe que era o sítio onde a Bibó estava, e o sítio onde tinha ido ter com o Jesus. Então, pediu-me para ir lá ver, e falar com ela. Esta foi mais complicada, e disse-lhe que o cemitério é o sítio onde a Bibó foi ter com Jesus, a voar, como um anjinho. E que nós deixávamos no cemitério uma fotografia sua com flores. Mas sempre que quisemos, a Bibó está no nosso coração e sempre a tomar conta de nós. 

Fico a pensar se não terá sido uma conversa prematura...

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