O elevador, e o meu medo



Quem é que  já se imaginou a correr desalmadamente atrás de um meio metro de gente que decidiu fazer um sprint em direcção a um elevador aberto? E quando estamos a tentar correr o mais depressa que os saltos nos permitem, pensamos mesmo que não vamos conseguir, e já imaginamos a porta do elevador a fechar, e ele a desaparecer?


Por sorte, os meus saltos não eram assim tão altos e consegui agarrar uma alça das jardineiras do Tomás mesmo a tempo de o impedir de entrar no elevador. O susto foi grande. O susto do momento em que tomei consciência de que ele poderia mesmo entrar no elevador, esse foi um misto de pânico e de nervos por não conseguir correr mais depressa, foi  o susto em que me apercebi do terrorista de filho que tenho e de que nunca irei ter um momento de descanso. 

Para além da habilidade que ele tem em correr na direção dos elevadores abertos, também nutre uma forte tendência por chamar todos os elevadores e correr para os que vão abrir. 
Sim, foram uns dias stressantes para nós, e desconfio que ele tomava um certo prazer em ver-me correr pelo hall do hotel, vermelha, a fazer equilibrismo entre os meus tornozelos e os saltos altos que teimavam em querer-me fazer cair. 

Desconfio também que ele gostava de me ver aflita à sua procura e que já corria em direção às escadas (ou portas, ou paredes, ou em qualquer direção de que se lembrasse) talvez só para me me ver naquele sprint. 

O que é certo é que não tenho descanso com ele, e esta história dos elevadores deixou-me assustada. 

Lembro-me de ter entre quatro a cinco anos, de estar com a minha mãe e a minha avó, e o meu irmão ainda no carrinho. Estávamos num hotel grande, com quatro saídas para quatro ruas muito movimentadas de Londres. Lembro-me de estarmos à espera dos elevadores, que seguramente eram mais de seis. Lembro-me das portas abrirem e lá dentro estar sempre cheio de pessoas, até que um apareceu vazio. Lembro-me de que entrei, mas a minha mãe não conseguiu com o carrinho, a minha avó ainda tentou segurar a porta com o guarda-chuva, a minha mãe e o carrinho não conseguiram entrar, o guarda-chuva não conseguiu fazer nada e fiquei eu, sozinha, com as portas fechadas e em movimento. 

Não sei se subimos ou descemos, mas lembro-me de as portas abrirem e fecharem muitas vezes, sempre com pessoas novas, pessoas que eu não conhecia, que saíam e entravam.

Não me lembro muito bem do que se passou, mas tenho ideia de num dos pisos ter visto o meu pai e penso que corri para ele. Não sei se foi assim, ou se já imaginei. Mas lembro-me que chorei. E chorei muito.

Não sei quanto tempo foi, mas deve ter sido uma eternidade para a minha mãe. Devem ter sido uns longos e prolongados minutos (ou horas?), com vários cenários a passarem -lhe pela cabeça. 

Curiosamente, por coincidência ou não, às vezes tenho pesadelos de estar num elevador e não conseguir parar para sair...

Nunca deixem os meninos entrar primeiro para o elevador. Na confusão do entra e sai as portas fecham-se e eles ficam dentro e nós cá fora. Ensinem os vossos filhos a só entrarem quando a mãe ou o pai disserem para o fazer, ou de mão dada com um adulto. 


Foto:pinterest

Mais posts sobre Me&Us 

Comentários

Mais lidas