O dia em que a laringite veio cá a casa






Não foi de dia, como aliás vem sendo o nosso habitual. Aqui, todas as doenças, sejam elas grandes ou pequenas, acontecem à noite, preferencialmente às tantas da madrugada, quando estamos bem a dormir, e no auge mesmo, na madrugada de domingo para segunda! Sim, as nossas noites são sempre uma animação e nunca se sabe o que poderá acontecer.


Ora, eu já me habituei a acordar com qualquer som leve que ouço durante a noite, seja o Joãozinho a tossir, ou a falar, ou os bonecos do Tomás que decidiram ter uma vida própria e começam a falar, ou qualquer outro pequeno ruído que haja pela casa.

Um destes dias, de madrugada, comecei a ouvir um som que, ao princípio, parecia vir de um rádio, o que era esquisito pois não temos nenhum em casa. Ainda pensei que fosse dos vizinhos, mas estranhei pois eram 4 da manhã e (felizmente) não são pessoas de grandes festas pela noite dentro.

Mas tão depressa o som vinha como ia. Voltava a fechar os olhos e voltava a ouvir novamente. Agora parecia uma foca bebé, algures entre a minha sala e o hall de entrada. Também achei esquisito, não temos focas em casa, nem nada que possa ser semelhante àquele mamífero.
Voltei a ouvir, e fui ao hall. Logicamente não havia lá nenhum animal perdido.

Regressei para a cama. Levantei-me outra vez. Fui à sala, cada vez mais intrigada com o  barulho que não entendia o que era.

Pensei ainda em acordar o João, mas como já normalmente o acordo sem motivo aparente (ou porque falo, ou porque achei que via alguém dentro do quarto, etc., etc.), achei mais prudente e altruísta da minha parte tentar que ele ficasse inabalável no seu sono tranquilo.

Desta vez parecia que vinha do hall dos quartos dos meninos, coisa que não entendia, pois não havia lá brinquedos. A foca bebé agora tinha sido substituída por um chileno a tocar algo, tipo uma cana  wind -pipes rachada, mas que eu não encontrava cá em casa. Fui ao quarto do João (sim, porque estas coisas acontecem sempre ao João), mas ele estava lindamente a dormir e ainda estremeceu com a lanterna do iPhone a bater-lhe diretamente nos olhos. Rapidamente apaguei a lanterna, porque pior do que ter um chileno escondido em minha casa às tantas da madrugada a tocar uma cana rachada, era, sem dúvida, acordar o João!

Fui ao Tomás. Tudo bem no quarto: os bonecos estavam calados e todos nos seus lugares. O Tomás dormia serenamente de barriga para baixo. Ia a sair da porta quando ouvi novamente a cana rachada. Olhei o quarto. Tudo calmo. Olhei para a cama dele e tudo igual, ele na mesma posição, serenamente a dormir.
Que coisa estranha, pensei eu, que raio de brinquedo terá ele aqui escondido. Lembro-me de pensar que isto seria uma daquelas cenas de um filme cómico/terror, mas mesmo assim achei melhor não acordar o João, pai.

Isto só pode vir do Tomás, pensei. E assim, com a lanterna no máximo, focada na cara e no corpo dele, fiquei eu, à espera de ouvir e ver qualquer coisa. Aqueles nano segundos pareciam horas, eu ali, em pé, com frio e descalça, a apontar o foco de luz para o bebé, à espera.


Até que ouvi. Vinha mesmo dele. Mas tanto ouvia o som de cana rachada versus foca bebé, versus cachorrinho ferido, como estava ele sempre a dormir tranquilamente. Foi muito estranho, pois nunca tinha ouvido nada assim, e não sabia o que fazer. A primeira coisa em que pensei foi “Está a asfixiar!”.

Bem, nem imaginam o meu pânico.

Tão depressa pensei nisso como me apercebi de que se estivesse mesmo a asfixiar não estaria com um ar tão sereno a dormir e certamente estaria a mexer-se bastante!

Peguei nele e fui a correr para o quarto, o João acordou logo. Nenhum de nós sabia o que fazer, nunca tínhamos ouvido aquele som. Nisto já o Tomás tinha acordado, e apesar de estar assim, parecia bem, dentro do possível.

Ligámos ao pediatra, às tantas da madrugada. Laringite. Não foi precisa muita conversa para vir o veredito.

Muitos dos nossos amigos já tinham tido filhos com laringite, eu sabia o que era. Só não sabia qual o som que fazia,

Trenga, sim (e muito)!
 Mas agora já sei!

foto: pinterest

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