Um dino mágico e um obrigada áquela mãe






Tenho um filho dorminhoco, que vai a correr para a cama quando quer dormir, que se ri quando vê o ninho e chama por mim quando repara que a sua horinha está esquecida. Mas como nem tudo podem ser maravilhas, e para compensar esta aparente desordem no equilíbrio do universo, tenho outro que, desde do berço, tenta com todas as suas forças fugir ao sono e abomina a hora do deitar.


Já passámos por fases mais complicadas e ultimamente, talvez devido ao facto de já estar mais crescidinho, tem sido mais tranquilo conseguir deitá-lo e dormir a noite toda.

Certa noite, como já vem sendo seu habitual, tentava usar todas as desculpas que sabia e conhecia para evitar que a luz do quarto fosse desligada. Chamou por mim novamente e confidenciou-me que estava a ter "sonhos maus". Eu sabia que era impossível, pois ainda nem sequer tinha tido tempo para adormecer, muito menos já para conseguir sonhar. Fui ter com ele, e peguei no estegossauro grande de borracha que lhe tinha oferecido recentemente. Num ato de iluminação e sabedoria pura lembrei-me daqueles bonecos nórdicos que são conhecidos por comer os sonhos maus dos meninos. Aplicando a minha sabedoria máxima, contei-lhe a história do estegossauro mágico, com a barriga de borracha, que protegia os meninos de todos os sonhos maus que tinham durante a noite. Este mágico estegossauro comia os sonhos e guardava-os na sua barriga mole, para depois, quando fosse à rua, soltá-los no vento e nunca mais voltarem.

O miúdo ficou convencido e dormiu a noite toda. Aliás, dormiu essa noite e todas as outras noites seguintes, sempre agarrado ao seu amigo mágico, e até tinha o cuidado de o levar à rua sempre que podia. Eram e ficaram inseparáveis.

Um outro dia, tive a ideia brilhante de irmos todos ao shopping comprar algo que obviamente não precisava para aquele instante. Levei o bebé na cadeirinha, e no seu colo o estegossauro do irmão. Entrámos e saímos de várias lojas até que me apercebi de que o nosso amigo mágico tinha desaparecido. Gelei! Rapidamente comecei a ver a minha vida (especialmente as minha noites) a andarem para trás. Corri todas as lojas e todos os cantos por onde tínhamos andado e não havia sinal do nosso querido amigo.

Nem sabia como contar ao João.

Desgostoso, o João fez o esforço enorme para não chorar, mas eu vi as lágrimas a quererem descer pela sua face abaixo. Senti-me péssima.

Fui à loja onde tinha comprado o boneco, na esperança de que ainda existisse um outro exemplar. Mas só havia um, que, com muito boa vontade e uma boa dose de imaginação, poderia ser um primo muito afastado: um elefante.

O João não queria o elefante, pois não era um dinossauro e certamente não tinha os mesmos poderes. Expliquei-lhe o melhor que consegui que eram da "mesma" família, e até tinham a mesma barriga mole de borracha, portanto só poderiam mesmo ser primos "como tu e a Madalena". Olhou para mim, não disse nada, mas eu sabia o que estava a pensar.

Com o João um pouco contrariado, levámos o novo amigo para casa, mas sem grande demonstração de afeto da parte dele.

O novo elemento da família veio e instalou-se no quarto, mas sempre com a nostalgia saudosista do querido estegossauro, "Esse é que era mágico!!"

Passados uns meses, no fim da festa de aniversário do João, em casa a desembrulhar a confusão dos presentes, entre sacos e caixas, papel rasgado e fitas, eis que aparece um saco grande. O João abriu rapidamente e nem queria acreditar. Era o irmão gémeo do estegossauro!! E tinha regressado casa!

Agora dorme com os dois, estegossauro de um lado e elefante do outro mais dois outros dinossauros pertencentes ao círculo familiar alargado.

Obrigada àquela mãe que, sem saber, trouxe de volta um grande amigo e um bom companheiro da nossa família!

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