A minha opinião vs o pediatra espanhol

A propósito do recente artigo do pediatra espanhol, que defende que devermos tratar as crianças como mini adultos, não devemos forçar comportamentos nem alimentos, devemos ouvir atentamente sempre e todas  as vezes que falam conosco, que devemos partilhar a nossa cama até a criança não querer mais, não usar castigos nem represálias para forçar comportamentos, etc etc,  sinceramente deixa-me algo desconfortável.


A minha primeira reacção ao ler o artigo foi sentir-me algo insegura. Insegura porque eu, perante um pediatra conceituado, estava a fazer muita coisa mal. À medida que lia o artigo, frase por frase, havia  pontos que ou não fazia cá em casa ou não concordava, e isso deixou-m eum pouco insegura das minhas apetências como encarregada de educação.
Adoro ler aqui, ver acolá, conhecer mais doutrinas e correntes de educação, estilo novos, formas tradicionais. Acho que se aprende imenso. Quando fui mãe pela primeira vez, repetia os mesmos rituais que os meus pais faziam comigo. Era só uma questão de me relembrar para fazer igual. À medida que o João foi crescendo, havia coisas que tinham funcionando comigo quando era pequena mas que com ele não,comecei a ler mais, e a ouvir tudo. Embora não concordasse com algumas coisas, pegava no que concordava e aplicava. Umas funcionavam outras nem tanto. Mas, apercebei-me que quanto mais lia e aprendia, mais baralhada ficava ( no entanto, ainda continuo a ler).

E o mesmo aconteceu ontem, quando li o texto do pediatra espanhol que defende um estilo de educação que no facebook apelidei de "amor aos saltinhos" . Senti-me má por impor castigos, senti-me má por forçar um alimentação variada à base de peixe, carne e legumes, senti-me má por os meus filhos a dormirem sozinhos, cada qual no seu quarto ( e acima de tudo a senti-me má por gostar de ter o meu espaço, o meu quarto, sozinha), senti-me pior que péssima por não ter dado de mamar, senti-me muito má por ter regras e horários , enfim, em suma senti-me uma má mãe e ia -me sentido cada vez pior à medida que lia o texto todo. 

Ao menos fazia algumas coisas bem, dava muito colo, muito mimo e beijinhos e brincava  muito. Vá, nem tudo estava perdido...

Dei um passo atrás para pôr a minha vida como encarregada de educação e mãe em perspectiva. Olhei para os meus filhos, olhei para os filhos dos meus amigos que são parecidos conosco ( em termos de educação), olhei para mim própria e para os meus irmãos, para o meu marido e para a família toda. 
A realidade é que não somos assim tão infelizes, nem os meus filhos o são. Tive uma infância muito feliz, e vejo a felicidade nos olhos nos meus filhos. Portanto, alguma coisa ( para além dos beijinhos e do mimo) estarei a fazer bem. Os meus filhos comem de tudo porque houve alturas em que foi preciso insistir, respeitam regras, porque houve alturas em que foi preciso impor castigos, dormem sozinhos, porque houve alturas que foi preciso forçar um pouco, sentem que são o meu centro do universo mas também sabem que há alturas que preciso de fazer as minhas coisas e ter o meu tempo. Acredito que o bom-senso e o instinto funcionam bem, e que podemos ser guiados por ele. Acho que devemos ouvir isto e acolá, mas no fundo deverá prelvalecer o nosso bom-senso e não nos devemos deixar sentir pressionadas ou influenciadas por determinada doutrina que agora está na moda

Acredito que as crianças devem ser tratadas como elas são, crianças, e não mini adultos. Precisam de regras e horários para se sentirem seguros, precisam de nós, pais, que as imponham. Precisam de brincar muito, e de sonhar, e de se sentirem amadas. 

Mas precisam de ter alguém que ensine que certos comportamentos não se fazem, e que acarretam consequências. Vivemos numa sociedade, com pessoas obviamente, e precisamos de criar e formar adultos que sejam aptos de viver confortavelmente em sociedade e de interagir com outras pessoas de forma saudável e normal. 
Temos que formar adultos que sejam capazes de respeitar a hierarquia dos mais velhos vs mais novos, de saber que existem "regras" sociais que definem as relações entre várias gerações. 
Temos que formar pessoas que saibam lidar com um "não" só por ser não, com as contrariedades que a vida apresenta, com as decisões negativas e as desilusões ( porque infelizmente irão ter muitas). 
Temos que formar adultos que sabem e aceitam que não são o centro do universo para toda a gente ( só para os pais, e mesmo estes têm as suas próprias necessidades e vontades), e que o mundo não gira a volta deles.  Que percebem que as vontades  e necessidades dos outros são tão importantes como as suas, e por vezes não são satisfeitas. 

Enfim, só um desabafo, embora ache que faça algumas coisas erradas,  tento fazer o melhor que sei, e aprendo todos os dias. Os meus filhos são felizes e isso sente-se, para mim é mais dique suficiente. 

E espero mesmo daqui a uns anos não ler isto e ver como me enganei.  

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Comentários

  1. Concordo na íntegra! E acrescento até, que hoje em dia há tanto pediatra com tanta opinião que escrevem tantos livros a exercer tanta pressão nos pais que, muito em breve, iremos assistir a uma geração de pais frustrados e deprimidos, que se culpabilizam por toda e qualquer situação fora dos parâmetros normais que possa surgir com os seu filhos

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  2. Acho que estão a fazer um alarido de um tema que o Senhor decidiu explicar a todos os Pais que, não se deve bater, não se deve forçar e não se deve obrigar, mais nada!
    A Pediatra do meu filho diz-nos para não forçarmos a dar a sopa! Não quer comer, não come! Quando tiver fome, ele pede! E quando pedir de comer, come a sopa...
    A hora da refeição tem de ser um momento bonito e divertido para as crianças!
    Acho um exagero considerar-se uma má mãe ao ler uma opinião!
    Meu Deus, se assim fosse, éramos maus em tudo, porque em todos os temas e situações existem as mais diversas opiniões, e todas diferentes umas das outras!
    Não exagere, sim?
    É mãe, seja má ou boa, é mãe, e só os seus filhos um dia a poderão julgar, sim?
    Estão a crucificar um homem (que por sinal até tem a sua ponta de razão) só porque dá a sua opinião. Ninguém manda em ninguém, cada um dá a educação que acha mais correta ao seu filho, este senhor, como Pediatra que é, dá a sua!
    Gosto muito de ler o seu blog, by the way...

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    1. Ainda bem que gosta de me ler, a serio!!! Vá lá, nem tudo está perdido!!
      Felizmente tenho uma boa dose de racionalidade e segurança que não me permitem a que estes sentimentos momentâneos perdurem no tempo e se tornem traumas. Acho que quanto mais uma pessoa lê co mais dúvidas fica, especialmente num tema tão sensível quanto este. Una dizem para elogiar, outros dizem que é a pior coisa, uns dizem que dormir até sempre com os pais, outros dizem para deixar chorar, uns etc etc. Talvez não tenha sido clara no post, mas queria deixar subentendido que o instinto e o bom senso é o melhor caminho.
      No caso cá de casa, com o mais novo, se deixasse, não comia, já com o mais velho, se deixasse, não dormia. No meu caso, não me parecesse que fosse boa opção deixar que eles mandassem, pois teria um filho subnutrido e outro com privação de sono. Enfim, cada qual sabe o melhor para si e para a sua família. Gosto de a ter por aqui, para me ler, e para dar a sua opinião.

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