Crianças tristes | Opinião de especialistas| Pediatra e Psicóloga


Quem se lembra deste post? Onde se falava de uma família de 4, com filhos entre os 3 e 6 anos de idade que ambos apresentavam depressão profunda. Numa primeira análise, os pediatras e psicólogos que acompanharam este caso não conseguiram descobrir a causa da depressão. Era aparentemente uma família feliz, bem na vida, e com uma casa saudável. No enatnto, após algumas sessões verificou-se que durante os últimos 3 anos os pais andavam sempre deprimidos, e os filhos absorvem esta tristeza e entraram em depressão profunda.

Refiro também no post que há pediatras que defendem  que se deve ser completamente transparente com os nosso filhos e não filtrar os nossos sentimentos. Segundo estes pediatras, isto os tornará mais resilientes para o futuro.

Pensei muito nest post e no drama de ter uma criança de 6 e outra de 3 (bebés, ainda) deprimidos. Ideias que nem sequerme  passam pela cabeça, realidades que nem sequer imaginava. Em conversa, comentei esta situação com duas amigas, ambas mães e de profissões ligadas com crianças.

Pedi-lhes que como profissionais da suas especialidades comentassem o referido post e dessem a sua opinião. Assim, vamos confrontar 3 opiniões, de uma Mãe (minha), de uma psicóloga e terapueta familiar (Sofia Arriaga, A vida a 4D), e de uma pediatra (Sofia Ribeiro Fernandes, Crónicas de Estetoscópio e Biberão face a esta questão:

Deverão ou não os pais mostrar completamente os seus sentimentos aos filhos?

Eu | Perspectiva de uma Mãe de 2 (4 anos e 10 meses)
Como Mãe, e com filhos em idades bastantes próximas das dos meninos do post, escrevei que na minha opinião não devermos ser totalmente transparentes, pois os nossos filhos recebem a sua segurança através de nós. Eles são o nosso reflexo, e nós somos o seu porto de abrigo


 Sofia Arriaga | Psicóloga e Terapeuta Familiar | 
A Vida a 4d


Sabes o que é que os psicólogos dizem, e até parece que é uma forma de fugir com o rabiosque à seringa? Dizem que cada caso é um caso. Depende da criança, da idade da criança, depende também do grau ou severidade do que já pode ser mais do que uma fase, pode ser uma doença.


Regra geral dir-te-ia que sim, que os pais devem mostrar o que sentem em frente dos filhos. Dentro de certos limites, claro. Mostrar que se está contente e feliz quando de facto não se está vai-se sentir, vai-se pressentir, há todo um clima e energias soltas que ficam no ar. As crianças são óptimas a apanhar os não-ditos e depois ainda é mais estranho não conseguirem dizer o que sentem, porque sentem tristeza, tensão, raivas, camufladas por um sorriso e/ou por voz calma e pastosa e sofrida. Então o que é que um sorriso significará na cabecinha deles?? Todos sabemos que a comunicação é muito mais do que linguagem verbal e nós somos traídos muito mais pelos nossos gestos do que pelas palavras. E depois aparecem injunções paradoxais que tornam todo um clima potencialmente saudável num esquizofrenizante. Os double binds são mensagens contraditórias. Podem ser exactamente isso que referi, quando dizemos uma coisa com a boca, mas o rosto e o resto do corpo mostram outra diferente.


Portanto, será sempre mais saudável, dentro de certos limites, reafirmo, as crianças saberem o que os pais estão a sentir e poderem falar sobre isso. Devem também perceber que os pais também têm fragilidades, mas que se irão recompor e ultrapassar as dificuldades. Assim aprenderão que há vários sentimentos/emoções, que todos eles fazem parte da vida e que lidar com a frustração é essencial.
Por outro lado, os pais são portos de abrigo, são âncoras, são sóis. Nós temos a responsabilidade de procurar estar bem, por nós e por eles. Procurar ajuda, tomar medicação se for caso disso, tratarmos de nós, da nossa saúde física e psíquica. Não sei se há um manual para pais, mas se houvesse esta regra tinha de lá estar. Preocuparmo-nos connosco e tratarmos de nós, por eles. Pela saúde deles.

Portanto, dir-te-ia que sim, que os pais devem mostrar o que sentem em frente aos filhos e dir-te-ia que não, não podemos ser completamente transparentes. Qualquer coisa como: não devemos ser completamente transparentes mas devemos ser verdadeiros, com eles e connosco próprios. Há coisas de adultos que não devem ser partilhadas com as crianças. Mas acho que "fazer de conta" que se está bem sem estar, não resulta. As crianças notam, as crianças pressentem. Portanto, os adultos têm de ser responsáveis pelas suas vidas e pelas vidas dos filhos. É uma carga pesada mas é a carga que carregamos. Nós adultos temos de ter essencialmente consciência que as crianças não entendem muita coisa, não entendem os não-ditos mas sentem o tal clima que paira no ar. Por isso deve ser-lhes explicado que os pais não estão bem mas que vão ficar. Ou que os pais estão tristes e zangados um com o outro mas que estão a ver se se entendem. Explicar-lhes as coisas de acordo com a idade, claro. Explicar-lhes para que entendam o tal clima, mas obviamente sem ser pesado demais, sem que façamos sentir as nossas crianças que são elas que têm de cuidar dos pais.
E se a depressão for severa, vamos ver se há outros adultos cuidadores com os quais a criança esteja vinculada que possam tomar conta dela durante algum tempo, enquanto os pais se recompõem, se cuidam, se fortalecem até se tornarem novamente abraços apertados e seguros, que protegem os filhos de todos os males do mundo. E dos seus próprios males.
 


Sofia Ribeiro Fernandes | Pediatra | 
Crónicas de Estetoscópio e Biberão

Meninos-nuvem-de-tempestade, 
são meninos que não aprenderam a rir ou esqueceram-se de quando o fazer. São meninos-cinzentos, agitados, em reboliço, que não gostam de chocolate quente e não sujam as mãos na terra. Não sabem dar abraços e beijam com as bochecas num beijo veloz envergonhado. Há meninos-nuvem-de-tempestade que nasceram assim e outros que ficaram cinzentos porque não conheceram outras cores. 

Há meninos-nevoeiro, muitos meninos perdidos pela Terra que espreitam a alegria dos outros meninos, que afogam os medos, as dúvidas e as lágrimas no opaco manto frio. Conheço muitos meninos-nevoeiro e sopro-lhes palavras que espero que os aqueçam.

Os meninos-ventania, são meninos estouvados, que correm de mochila às costas, uns atrás dos outros numa romaria de fim de escola, não pensam e fazem, jogam às fisgas, tem as pernas pintadas de nódoas negras e não sabem a tabuada.

Meninos raio-de-sol, tomam banho todos os dias, sabem comer com faca e garfo, brincam na rua com os amigos, gargalham, dão beijos molhados com lábios-achocolatados.
Meninos-trovoada são meninos quase nuvem-de-tempestade, mas que não têm lágrimas.
Meninos-tropicais são meninos recheados de tudo, meninos que riem, choram, brincam, saltam, beijam quando querem, abraçam.

Porque há tantos meninos? Porque cada menino tem uma história que vai pincelando a alma. E, cada história é um pedaço de puzzle que nasce, que vem e que vai, que encaixa melhor ou pior, que se gosta ou não. Cada pessoa, cada sítio, cada festa de aniversário, cada grito, cada olhar, cada beijo pincelam essa história. 

Perguntam-me: Devem os Pais mostrar todos os sentimentos aos filhos?

De cabelo esparguete nero quase todo retorcido de tanto pensar na resposta, baralhada pela teoria dos livros, respondo o quase previsível: todos os sentimentos, N-Ã-O.
A ira, a discussão-malagueta, a raiva-canina, as palavras feias, a inveja, o orgulho-imperial, a preguiça-desmedida- cito quase os sete pecados capitais- deverão ser refreados, abafados, apagados, abolidos. Os  outros sentimentos... talvez. Um lágrima não contida, uma tristeza consentida, uma angústia dos bolsos vazios, uma perda visceral, são permitidos de um modo collant de Inverno, que não deixará passar tudo. Afinal, não temos Pais coração de pedra. E, faz parte da aprendizagem: chorar e limpar as lágrimas dos outros, abraçar um mau momento, saber que há passos errados e ruas tortas e que há mealheiros vazios. Pais tristes e infelizes não é sinónimo de meninos tristes e infelizes, é antes sinónimo de meninos que aprendem o verso das histórias e que sabem e aprendem a virar as peças para o lado certo. Há sentimentos e sentimentos, há pais e pais, há peças do puzzle que têm dois lados. O importante é errar e ensinar a corrigir, é chorar e saber sorrir de seguida, é dar o passo errado e procurar uma saída. 

E, é por isso que há tantos meninos, porque há muitos pais que ainda são aprendizes de viver e ser feliz,  porque há avós, porque há festas de aniversário, porque há um mundo recheado de peças de puzzle que  se vão guardando.

O que queria era apenas e só que existissem meninos-tropicais, salpicados de um pouco de chuva, sol, trovoada, vento e puramente f-e-l-i-z-e-s.
 



E vocês, o que é que acham?


Comentários

  1. Muito bom!
    eu partilho da opinião da Dra. Sofia Ribeiro Fernandes: "Uma lágrima não contida, uma tristeza consentida, uma angústia dos bolsos vazios, uma perda visceral, são permitidos de um modo collant de Inverno, que não deixará passar tudo. Afinal, não temos Pais coração de pedra. E, faz parte da aprendizagem: chorar e limpar as lágrimas dos outros, abraçar um mau momento, saber que há passos errados e ruas tortas e que há mealheiros vazios. Pais tristes e infelizes não é sinónimo de meninos tristes e infelizes, é antes sinónimo de meninos que aprendem o verso das histórias e que sabem e aprendem a virar as peças para o lado certo. Há sentimentos e sentimentos, há pais e pais, há peças do puzzle que têm dois lados. O importante é errar e ensinar a corrigir, é chorar e saber sorrir de seguida, é dar o passo errado e procurar uma saída."

    Gisela Falé

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  2. Adorei ler. Quem atravessa um divórcio enfrenta sempre, de algum modo, estas questões. E no fundo o que mais desejados é que cresçam felizes e a ver os pais felizes.

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  3. É de facto um tema muito sensível e irá depender do porquê dos pais estarem tristes, revoltados, inseguros, etc.
    Seguramente que uma mãe ou pai deprimidos não terão capacidade para gerir os seus sentimentos e por isso, falando ou não sobre o assunto, seguramente que as consequências surgirão na(s) criança(s).

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  4. Tenho dois filhos, de 12 e 6 anos, e em parte tenho de responder como a psicóloga: depende das crianças. Porque a minha mais velha nasceu depressiva e assusta-se com euforias e gosta muito de conversas profundas, tenho de partilhar coisas com ela para que ela partilhe as dela comigo, mas tenho de seleccionar o que partilho: escolho os meus erros, para que ela saiba que aprendemos toda a vida e não somos perfeitos; as minhas lágrimas de saudades de quem partiu, para que saiba que chorar é natural e amar por vezes dói; e as minhas frustrações com as asneiras deles, para que recorde que avisei 3 vezes antes de perder a paciência e que não sou de ferro e que lhes compete colaborar para sermos todos mais felizes. Mas, com o meu mais novo, que é feliz como um passarinho, desde que nasceu, não posso partilhar tristezas porque ele fica ansioso - não as entende; não posso partilhar triunfos, porque ele pensa que é uma competição; resta-me partilhar a parte da cooperação, da conversa sobre o meu cansaço e como todos podemos ajudar-nos e ele fica orgulhoso de ter tal papel. Cabe-nos a nós avaliar e medir a informação que é adequada a cada idade e a cada feitio.

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  5. Tenho 33 anos. No dia que nasci o meu pai ficou depressivo. Entretanto melhorou. Perto do meu irmão nascer 2 anos depois, o meu pai entrou outra vez numa fase depressiva. Melhorou outra vez. A minha mãe nunca o deixou mostrar a sua fraqueza, a sua tristeza. Tenho a certeza que tomou a boa decisão. Sempre notei que o meu pai era um pai galinha, mas ficava por aí. Coisas começaram a ser reveladas por volta dos meus 19 anos. O que pode fazer bem a uma criança ver um pai depressivo 3 meses, 6 meses, 1 ano, anos a fio ?????????? Tem alguma utilidade? Ajuda a criança em alguma coisa? NÃO, NÃO e NÃO. Agradeço a minha mãe a decisão que tomou. Uma verdadeira mulher de ferro

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  6. Eu acho que não só depende da crinança como também da situação!! Por norma não mostro a minha tristeza à minha filha. Aliás, tive uma depressão e acho que ela nem deu por isso!! Mas claro que não sou uma mãe com coração de pedra e já me aconteceu chorar em frente a ela, estar triste e não conseguir esconder. Agora constantemente comportamentos depressivos acho que nem é salutar para a própria criança!

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    Respostas
    1. É isso mesmo: transparência razoável, qb, racional...Uma lágrima, uma tristeza salutar, um mau-feitio consentido fazem parte das peças com que aprendemos a construir a vida...Como já disse: não queremos pais coração de pedra...
      A Pediatra

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  7. Adorei a perspectiva e a escrita da pediatra Sofia Fernandes, palavras sábias de quem sabe viver!

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